"(...)Hoje, perante a catástrofe social e as consequências políticas que eram previsíveis, resta saber se a Grécia funcionará como vacina, obrigando a mudanças na Europa que impeçam o contágio e a dissolução dos sistemas partidários como os conhecemos, ou se, pelo contrário, estamos face ao início de uma epidemia que acabará por alastrar a toda a Europa, partindo das periferias, mas atingindo também o centro. Está nas mãos dos governos europeus escolher. Até agora têm cometido demasiados erros e, pior, têm insistido na trajectória falhada que ameaça os regimes.
Estamos a viver um momento crucial para a Europa e convém recordar lições da História que não devem ser esquecidas. A primeira das quais é que “não podemos ser inocentes outra vez” e pensar que a irracionalidade e o mal absoluto não são ameaças que estão sempre ao virar da esquina."
a versão integral do meu artigo de 12 de Maio do Expresso pode ser lida aqui.
Terça-feira, 22 de Maio de 2012
Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
E se nada mudar?
"(...) Apesar deste contexto, o centro-esquerda ainda não conseguiu desenvolver uma leitura partilhada da crise e articulá-la com uma resposta política coerente. Não há sinais de que Hollande seja capaz de responder a estes dois desafios.
Há, antes de mais, um problema estrutural. A esquerda democrática encontra-se em declínio ideológico porque ou foi incapaz de se readaptar a um contexto económico, social e demográfico muito diferente do do seu apogeu ou, quando o fez, como com a Terceira Via, teve os resultados conhecidos. Convém não esquecer que a crise que hoje enfrentamos resulta de uma arquitectura institucional da zona euro desenhada quando a maioria dos países europeus era governada por partidos social-democratas.
Hoje, o que o centro-esquerda tem para oferecer, desde a França com Hollande a Portugal com Seguro, é apenas um acto adicional ao estrangulamento político europeu. Talvez nenhum outro acontecimento cristalize esta dificuldade como a discussão em torno do Tratado de Estabilidade. Perante um conjunto de disposições que representa uma capitulação política da social-democracia, o que nos é proposto é mantê-las e juntar-lhes uma aposta no crescimento, que nunca se percebe bem em que instrumentos assentará. Hollande alterará o clima político e funcionará como um contrapeso. Espero estar enganado, mas, para além disso, pouco mudará."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 5 de Maio pode ser lida aqui.
Há, antes de mais, um problema estrutural. A esquerda democrática encontra-se em declínio ideológico porque ou foi incapaz de se readaptar a um contexto económico, social e demográfico muito diferente do do seu apogeu ou, quando o fez, como com a Terceira Via, teve os resultados conhecidos. Convém não esquecer que a crise que hoje enfrentamos resulta de uma arquitectura institucional da zona euro desenhada quando a maioria dos países europeus era governada por partidos social-democratas.
Hoje, o que o centro-esquerda tem para oferecer, desde a França com Hollande a Portugal com Seguro, é apenas um acto adicional ao estrangulamento político europeu. Talvez nenhum outro acontecimento cristalize esta dificuldade como a discussão em torno do Tratado de Estabilidade. Perante um conjunto de disposições que representa uma capitulação política da social-democracia, o que nos é proposto é mantê-las e juntar-lhes uma aposta no crescimento, que nunca se percebe bem em que instrumentos assentará. Hollande alterará o clima político e funcionará como um contrapeso. Espero estar enganado, mas, para além disso, pouco mudará."
a versão integral do meu artigo do Expresso de 5 de Maio pode ser lida aqui.
Sábado, 12 de Maio de 2012
Your House
O Walter Benjamin esteve na zona de conforto a semana passada. Aqui fica uma interpretação despojada de Your House, uma das canções de The Extraordinary Life of Rosemary and Me.
Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Até aqui, tudo bem
"(...) É uma ilusão pensar que tudo se manterá igual no sistema político com um período longo em que o comportamento da economia alterna entre o anémico e a recessão. Pura e simplesmente, o amor do povo pela liberdade não será suficiente para que daqui, por exemplo, a quatro anos, os portugueses se dirijam ordeiramente e em massa às urnas para depositar o seu voto nos partidos em que necessariamente deixarão de confiar.
A queda que vivemos começou por ser financeira, económica e social, mas a aterragem será inevitavelmente política e colocará em causa o regime. Como nos ensina a história europeia, a legitimidade dos regimes democráticos depende do pluralismo e da defesa do Estado de direito, mas estes valores só são politicamente sustentáveis se se alicerçarem em níveis de bem-estar suficientes, que funcionem como cimento das relações sociais. A questão não é apenas de privação material hoje, é também o modo como o regime gere expectativas sociais. Em “A classe média: ascensão e queda”, Elísio Estanque escreve que “enquanto numa trajectória ascensional se tende a antecipar a condição de chegada, na situação inversa procura-se a toda o custo negar a realidade, mesmo quando já se mergulhou nela até ao pescoço”. Ou seja, enquanto nas trajectórias ascendentes as expectativas vão sempre um passo à frente da posição individual, perante um fim abrupto desse percurso, a intensidade da frustração dispara, mas ao retardador. Um pouco como no filme de Mathieu Kassovitz: quando caímos, como agora acontece, primeiro negamos a sensação de perda, para depois chocarmos com a dura realidade da desilusão. Só então perceberemos que a solução para a crise deveria ter sido outra. Pode ser, contudo, demasiado tarde.
a versão integral do meu artigo do Expresso de 28 de Abril pode ser lida aqui.
Domingo, 6 de Maio de 2012
Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Venus in Furs
Nunca saberemos se era nisto que estavam a pensar o Leopold von Sacher-Masoch, primeiro, e o Lou Reed e o John Cale, mais tarde, quando escreveram o Venus in Furs. Mas pode bem ser o caso. St. Vincent em todo o seu esplendor, ontem à noite no programa do Jools Holland (John Cale já havia abordado o tema, no mesmo programa, há uns anos).
também publicado aqui (onde tenho estado bem mais activo)
Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
Presos numa encruzilhada
"(...) Este Tratado visa consagrar a hegemonia da direita liberal à custa da capitulação política das restantes mundividências. Há uma diferença significativa entre um consenso desejável em torno da necessidade de consolidação das contas públicas e uma homogeneização que afasta as possibilidades dos Estados-membros decidirem o modo como alcançam a disciplina orçamental e que tipo de Estado social desejam. As consequências são evidentes: se o Tratado for para levar a sério, os Estados-membros menos desenvolvidos ficam privados dos mecanismos de política económica que tornam possível recuperar atrasos, ao mesmo tempo que continuam a não ter os instrumentos financeiros desejáveis, característicos de um sistema federal. No fundo, alienamos soberania, sem qualquer tipo de contrapartidas. Ainda assim, há uma réstia de esperança. No essencial, estamos perante uma institucionalização da hipocrisia: não só os preceitos do Tratado não visam responder às dificuldades que enfrenta a zona euro hoje, como não vão ser cumpridos pelos mesmos governos que agora os subscrevem (dos 25 Estados, apenas quatro cumprem, neste momento, o número mágico para o défice estrutural – sendo que Alemanha e França não fazem parte do grupo). No seu livro póstumo, Thinking the Twentieth Century, Tony Judt, numa conversa com o também historiador Timothy Snyder, deixa-nos uma espécie de lamento céptico: “é provável que, enquanto intelectuais e filósofos políticos, estejamos perante uma situação em que a nossa tarefa principal não é imaginar mundos melhores, mas, antes, pensar como é que podemos prevenir mundos piores”. No fundo, como mostra a discussão política na Europa de hoje, é isso que nos resta."
o resto do meu artigo do Expresso de 14 de Abril pode ser lido aqui.
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